quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

PORTUGAL VOLTOU A SER O PRINCIPAL FORNECEDOR DE ANGOLA



Portugal voltou a ser o país que mais vende a Angola, no terceiro trimestre de 2016, após vários meses de liderança da China, que por sua vez comprou mais petróleo angolano no mesmo período, face ao anterior.

De acordo com o documento estatístico do comércio externo do terceiro trimestre, do Instituto Nacional de Estatística (INE) angolano, libertado apenas este mês e ao qual a Lusa teve hoje acesso, Portugal vendeu a Angola, entre julho e setembro de 2016, mais de 74.394 milhões de kwanzas (421,8 milhões de euros) em bens e serviços.

Trata-se de um aumento de 21,4% face ao trimestre anterior, mas um registo que ainda fica 12,5% abaixo face tendo em conta as vendas feitas por Portugal no mesmo período, mas de 2015, ano que marcou o agravamento da crise angolana devido à quebra nas receitas com a venda de petróleo.

A quota de Portugal nas importações totais angolanas subiu desta forma para 14,8%, logo seguido pelos Estados Unidos, com uma quota de 12,6% e vendas, no mesmo período, de 63.200 milhões de kwanzas (358 milhões de euros), e da China, com um quota de 12,4% e 62.362 milhões de kwanzas (353 milhões de euros).

No total, as importações angolanas caíram quase 20%, face ao mesmo período de 2015, para 502,9 mil milhões de kwanzas (mais de 2.500 milhões de euros).

No plano inverso, a China mantém-se, como há vários anos, na liderança das exportações angolanas, essencialmente de petróleo, tendo comprado o equivalente a 565,2 mil milhões de kwanzas (3.200 milhões de euros) no terceiro trimestre. Trata-se de um aumento (em valor, devido ao aumento entretanto verificado na cotação de crude) de 36,3% face ao mesmo período de 2015 e de mais 30,7% tendo em conta o segundo trimestre de 2016.

A quota da China nas exportações angolanas passou dos 35% do total no segundo trimestre do ano para 40%, no terceiro trimestre, segundo os indicadores do INE.

Depois da China, a Índia foi o segundo país que mais crude comprou a Angola (94% das exportações angolanas foram petróleo), no valor de 108,6 mil milhões de kwanzas (615 milhões de euros) e com uma quota do total de 7,7%, enquanto os Estados Unidos compraram 86,6 mil milhões de kwanzas (491 milhões de euros), representando uma quota total de 6,1%.

Taiwan, apesar do diferendo chinês e das fortes relações entre Angola e a República Popular da China, surge no quarto lugar do destino das exportações angolanas, tendo comprado 68,1 mil milhões de kwanzas (386 milhões de euros) e com uma conta de 4,8% do total.

Portugal volta no terceiro trimestre a figurar entre os 10 principais destinos das exportações de Angola, com compras no valor de 59,1 mil milhões de kwanzas (335 milhões de euros) e um quota de 4,2%, tal como a França.

Globalmente, as exportações angolanas aumentaram para 1,411 biliões de kwanzas (oito mil milhões de euros) entre julho e setembro, mais 14,5% face ao segundo trimestre do ano e uma subida de 32,5% em termos homólogos, tendo em conta 2015.

Este aumento foi essencialmente influenciado pela subida da cotação do petróleo no mercado internacional, tendo em conta o registo do trimestre anterior.

Lusa, em Notícias ao Minuto

Angola. ESTÁ NAS NOSSAS MÃOS


Só erra quem trabalha, lá diz o ditado. Funciona como uma dialéctica que homenageia o desejo de deixar obra.

Jornal de Angola, opinião

Mas não só. Evoca acima de tudo a confiança e a coragem de quem se sujeita a que se lhe apontem o dedo, sem nunca hesitar perante um novo desafio, por mais difícil que pareça. 

Temos eleições gerais este ano e toda a gente sabe o que isso representa para os angolanos. Depois da primeira experiência em 1992, e tudo o que se passou desde então, os angolanos fizeram por melhorar em 2008 e em 2012. A normalidade política e a inerente previsibilidade dos actos eleitorais são um desafio para todos os angolanos.

Estamos em ano de eleições. Todos sem excepção, são chamados a fazer parte desta corrente positiva para uma nova demonstração de saber fazer, claro que, dentro das limitações próprias de uma conjuntura da qual fazemos parte. 

Porque toda a gente espera que esse exercício seja uma referência para as demais nações africanas, todos somos poucos para fazer do processo eleitoral um exemplo de transparência, de lisura e onde se sinta e respire harmonia e concórdia.

Somos todos chamados a arregaçar mangas para que os eleitores angolanos possam fazer a sua escolha de forma livre e consciente. Felizmente temos muitos exemplos pelo mundo, até mesmo pelo nosso continente, de como devemos proceder para se evitarem situações desagradáveis susceptíveis de manchar todo um percurso que está a ser feito para que tenhamos instituições democráticas ainda mais fortes.

No fundo, o que assistimos hoje é uma sequência de acontecimentos que fazem a nossa história acontecer, e não nos podemos dar ao luxo de olharmos para eles como se de meros factos isolados ou mesmo fortuitos se tratassem.

E essa forma de olhar para os factos conduz-nos a uma compreensão inquinada da nossa bonita e rica História. Claro que sempre haverá quem, para proveito próprio, prefira usar da memória selectiva e contar a história por partes. De preferência as que mais ajudem a compor o drama para justificar posições políticas perfeitamente irracionais e até criminosas se atendermos à nossa história recente.

Desde que se calaram as armas, os angolanos passaram a poder pensar de forma mais serena e dedicada como construir o seu futuro. Para que este processo fosse inclusivo, foi preciso evitar a ideia de vencedores e derrotados numa guerra fratricida, passar uma borracha na ficha dos protagonistas, sem olhar para a cor da farda, nem mesmo a dimensão ou gravidade dos crimes cometidos. Isto foi feito.

Escusado será falarmos aqui de outras coisas que foram feitas, e bem ou mal permitem que hoje os angolanos possam planificar melhor o seu futuro e das suas famílias, sem os receios do passado. Que assistamos às tragédias que grassam nos povos da Síria, da Líbia, do Iraque, do Iémen, ou aqui perto, na RDC, Sudão do Sul e República Centro Africana, como cenas remotas de um passado que desejamos profundamente jamais voltar a viver.

Partilhemos todos da confiança de que o nosso, sublinho, o nosso processo eleitoral vai decorrer com transparência e no espírito de harmonia e concórdia, como disse o Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Façamos disso uma convicção. E vamos mostrar ao Mundo, como de resto o fizemos a 11 de Novembro de 1975, a 4 de Abril de 2002, e, desde então, em todas as vezes que fomos “convocados” para um dever patriótico, fazer dessas eleições uma referência para África. Está nas nossas mãos.

*em A Palavra ao Diretor

Angola. COLOLO DESMENTE SAKALA


João Cololo foi representante da UNITA na Holanda. Em entrevista ao Jornal de Angola, revelou o motivo por detrás da sua saída do partido do galo negro.

João Dias – Jornal de Angola

Diz ter trabalhado arduamente para o engrandecimento da UNITA no exterior, mas a desorganização, falsos compromissos e promessas vazias da parte dos dirigentes levaram-no a perceber definitivamente que não havia futuro ali. João Cololo revelou que o que mais o preocupa ao olhar para um partido da dimensão da UNITA é o modo como pretende levar a abordagem política do país numa perspectiva de tribalismo que mal conseguem camuflar.

Jornal de Angola - O que o faz desistir da UNITA?

João Cololo - Em primeiro lugar, o tribalismo e em segundo lugar a falta de transparência, os falsos compromissos e a desorganização… Estou agora no MPLA e muita gente dirá: foi comprado. Errado. Não estou no MPLA por dinheiro. Não faço política por dinheiro. Quero trabalhar no MPLA para contribuir para o bem do povo e acima de tudo, me revejo nesse grande partido. É preciso esclarecer que o motivo por detrás da minha saída da UNITA, não tem que ver com dinheiro. O que me fez sair desse partido é sobretudo o tribalismo. Mas além disso, está o falso compromisso. Se se é nomeado para um cargo, então devem ser dadas as condições para trabalhar com vista a conseguir resultados.

Jornal de Angola -  Alcides Sakala e Adalberto da Costa Júnior dizem que João Cololo nunca chegou a ser representante do partido na Holanda.

João Cololo -  A UNITA só demonstra que prefere a via da mentira. É incrível! Quanto ao pronunciamento de Alcides Sakala e de Adalberto da Costa Júnior, só posso dizer que é puro descaramento. No país e fora dele, conhecem-me como representante desse partido na Holanda e estou credenciado como tal e existem provas documentais que o atestam. Além disso, existem pessoas que testemunharam o acto de empossamento, falo do próprio Júlio Muhongo, que é representante do partido na Bélgica, a secretária da Jura na Holanda, o próprio filho do Sakala que é representante da Jura na Bélgica, bem como o representante da FNLA na Holanda, entre outros, marcaram presença neste acto. Portanto, parece-me que mais uma vez, a própria a UNITA revela o seu cinismo.
Diante disso tudo, o que me deixa tranquilo é o facto de dispor de documentos que contrariam todas estas alegações que a UNITA anda por aí a dizer a meu respeito. Tenho comigo o despacho de nomeação oficial assinado pelo presidente Samakuva e datado de 21 de Novembro de 2014. Ao longo de 2013 tinha sido indicado para o cargo, mas em 2014 fui oficialmente nomeado. Tenho também comigo uma declaração para tratar do passaporte de serviço datada de 7 de Dezembro de 2016. Documentos não faltam para desmentir a UNITA.
Além dos documentos, participei em diversos eventos do partido, como no congresso e fui apresentado aos militantes como representante do partido na Holanda, viajei com o Massanga ao Uíge nessa qualidade e quando cheguei receberam-me na qualidade de representante do partido. Quando tentam desmentir, apenas revelam quão mentirosos são.

Jornal de Angola - Sente que vai encontrar espaço no MPLA?

João Cololo - Com certeza. Cresci no MPLA e conheço o partido há bastante tempo. Não há dúvidas de que me vai dar espaço. Como partido maioritário, começou a jornada para democracia há muitos anos, isto é, desde 1978, quando o saudoso Presidente Agostinho Neto dizia que o MPLA era um partido socialista em vias de democratização. Este projecto não é de hoje. É já antigo. Democracia é liberdade nas suas mais diversas manifestações. E isso já existe no MPLA. Mas as pessoas confundem tudo isso, além de que muitas querem atingir o poder através da desorganização. Democracia não se compadece com violação sistemática da lei e falta de respeito à personalidade dos outros. Também não significa fazer manifestações nas quais se atentem contra o bom nome dos órgãos de soberania ou mesmo do Chefe de Estado. Manifestações desenfreadas são uma ameaça a estabilidade. Ainda temos partidos que se querem aproveitar da desorganização. Por isso incitam a instabilidade através de manifestações. Temos de esclarecer bem as coisas. Que o povo angolano tenha muito cuidado, nesta fase em que as eleições estão à porta. Já sofremos muito com a guerra e por isso não existe família alguma que não tenha perdido alguém na guerra. Todos nós perdemos familiares. Vamos escolher o MPLA que é um partido unificador e conhece a matéria governativa.

Jornal de Angola - Então a matriz ideológica do MPLA marcada pela unidade do povo angolano é a ideal para um país revestido de um assinalável “mosaico cultural”?

João Cololo - Sem dúvida. O MPLA tem uma matriz ideológica que é sobretudo agregadora, na medida em que não pretende deixar ninguém de parte ao contrário da UNITA que sugere uma pretensa protecção aos Ovibundos e a então UPA aos Bakongos. Agostinho Neto refutou, já naquela altura, todas estas posições ao afirmar “de Cabinda ao Cunene e do mar ao Oeste, somos um só povo e uma só nação”. Era para acabar com uma tendência, que caso pegasse, ia perigar a estabilidade da nação angolana e não teríamos o que temos hoje do ponto de vista de coesão social. O Presidente Agostinho Neto conseguiu unir o angolano num só povo. Pode crer que se fosse a UNITA a ganhar, hoje teríamos graves problemas de índole tribal, se fosse a UPA, seria a mesma coisa.

Jornal de Angola – Mas a UNITA tem quadros de diversas regiões.

João Cololo - Os que dirigem o partido são apenas pessoas do sul. O Raul Danda, que é de Cabinda e que assume a pasta de vice-presidente da UNITA, é apenas um toque para maquiar esta realidade. Já é tradição naquele partido ser dada a pasta de vice-presidente a pessoas do norte só para tapar a vista das pessoas sobre o tribalismo. Mas o vice-presidente é apenas uma estátua e existem reuniões em que nem sequer participa e ele nem conhece os segredos desse partido. Os únicos que conhecem a UNITA são alguns generais na reforma e aqueles que não sei por que razão combateram o Nfuka Muzemba.

Jornal de Angola – Então na sua opinião o futuro dos angolanos é com o MPLA?

João Cololo - Sim. O futuro dos angolanos é com o MPLA e digo: o MPLA poderá perder um dia, mas não agora. Tenho certeza que se o MPLA deixasse o poder, Angola entraria em colapso.

Jornal de Angola - Fala insistentemente numa questão algo delicada que tem a ver com o tema do tribalismo. Como se manifesta esse tribalismo dentro do partido?

João Cololo - Tentam esconder isso, mas essa é uma questão que vem sempre ao de cima. Trabalhei com o Osvaldo Sakala que é representante da JURA na Bélgica. Apesar de representante da Jura, era ele a quem os dirigentes pediam informações em detrimento do representante que seria a pessoa indicada. É que a informação dele era mais valorizada que a de um representante do partido. Quando uma delegação do partido ou um dirigente fosse ao exterior ou nos países de Benelux, a pessoa a quem pediam informação sobre o funcionamento da representação na Bélgica, era o Osvaldo, o filho de Alcides Sakala, que parece-me ser do Huambo, se não estou em erro. Outro caso caricato tem a ver com o mano Júlio, o sobrinho do Samakuva, que fez cair o partido na Bélgica. Ainda assim, foi a ele a quem recaiu a nomeação numa segunda ocasião. Vai chocar muita gente falar desse aspecto do modo como falo, mas é importante saber a verdade tal como ela é. Nisso tudo, se fosse um Bakongo, podes crer, a história seria diferente. Quando num partido a atribuição de cargos tem como critério o local de nascimento ou de onde se é natural, estamos perante um quadro que pede mudanças imediatas.

Jornal de Angola - Nunca lhe ocorreu chamar a atenção para este aspecto?

João Cololo - Quando se está numa casa e quando mal conheces as suas regras, enquanto as absorvemos, o melhor é engolir muitos sapos e aceitar muitas coisas. Tudo para podermos, no fundo, perceber como é o modo de funcionamento desta ou daquela organização. Foi o que tentei fazer ao longo destes anos. Mas se você estiver na sua casa e vires que o seu pai está a fazer coisas pouco adequadas, você pode dizer qualquer coisa para corrigir, pois tem certeza que o seu pai não te vai maltratar ou bater. Alguns partidos políticos aqui no país ainda não são democráticos, mas falam de democracia.

Jornal de Angola - O que quer dizer com esta afirmação?

João Cololo - Acho que democracia tem como base as diversas expressões da liberdade, o que permite entre outros aspectos, a que as pessoas se expressem livremente, mas sem abusar disso. Hoje o discurso sobre democracia não é tudo. O mais importante é a prática.

Jornal de Angola – Fala de desorganização num partido que se propõe ascender ao poder?

João Cololo - Em Kikongo há uma expressão que pergunta: “se a mosca fugir a ferida vai comer o quê? Isso significa que os hábitos das pessoas não são abandonados com facilidade. Ninguém abandona as suas atitudes de um dia para outro. Isso para dizer que todas as atitudes da UNITA são tidas como uma espécie de tradição e que tenho dúvidas que sejam capazes de abandona-las. Mesmo dentro do próprio partido há algo estranho. É que entre eles, diga-se, os do sul, o comportamento é bem diferente em relação a partidários de outras regiões do país.

Jornal de Angola - O que isso tem a ver com o provérbio?

João Cololo - Com o provérbio Kikongo quero apenas realçar que dificilmente a UNITA vai abandonar o que tem no seu ADN, ou seja, a sua atitude enquanto partido vai continuar. Com isso, quero chamar atenção para o que eles designam de projecto sul e que teimam em esconder. Eles têm um projecto sul, embora queiram demonstrar que é nacional para conseguir aceitação junto da população. É o alcance desse provérbio tomado numa perspectiva de analogia.

Jornal de Angola - Foi notando falhas ao longo destes anos que militou neste partido que o despertaram a ponto de desistir dele. Fez alguma coisa para mudança?

João Cololo - Sim. Mas a minha luta é em prol do angolano. Quando entro para um partido não o faço em nome de interesses pessoais ou dinheiro. Agora, para se encontrar soluções para o bem-estar do angolano temos de ser pessoas e partidos sérios e transparentes. Se não formos sérios, ainda que tenhamos bons discursos, o tempo vai encarregar-se disso. A desorganização que reina no seio da UNITA mostra, à partida, o grande problema que tem entre mãos, mas que tem pouco interesse em ultrapassá-los. É preciso que se perceba em definitivo, que por conta disso, a UNITA não está a altura dos desafios de Angola. Não está a altura de governar o país e não sei se há-de estar um dia.

Jornal de Angola- Há sempre uma e outra coisa que escape nas organizações e partidos, isso é natural e até humano haver uma e outra situação de desorganização. Não acha?

João Cololo - A UNITA não está a altura de governar Angola. Neste partido reina muita desorganização e olhe que é ainda um grupito. Não está a governar o país com 24 milhões de habitantes. Mas mesmo assim já vemos grandes sinais de falta de organização. Agora imagine a UNITA numa dimensão macro. A UNITA está vestida de pele de cordeiro, porque tem interesses. Mas se ganha o poder, já vão ver no que se transforma.

Jornal de Angola - Hoje os tempos são outros e olhando para aquilo que é a UNITA, acha que o cidadão o vê como partido alternativo ao poder ou a vencer eleições num futuro próximo?

João Cololo - Já falei com muita gente, o que permitiu notar que o povo angolano gosta muito do MPLA. Mas a crise está a provocar muita apatia. Por isso é que costumo a dizer que a UNITA quer aproveitar-se da crise para se agigantar. Acho que não vale à pena confundir isso com a afirmação de que o povo tem simpatia pela UNITA. A crise não é motivo para deixar de votar e tenho dúvidas de que alguém deixe de votar no MPLA para ir votar num outro partido.

Jornal de Angola - Olhando para tudo quanto disse, acha haver espaço para uma aposta da população na UNITA, ou seja, acha que a UNITA tem futuro?

João Cololo - A UNITA, quando perder mais estas eleições de 2017, tenho certeza que vai se começar a desenhar o seu fim. Ao perder, a UNITA vai “estragar-se”, porque as pessoas que fizeram a guerra pela UNITA e os que sempre o apoiaram, suportaram e alimentaram já esperaram muito. Tem muita gente que aos poucos vai perdendo a esperança nesse partido.
Acho mesmo que a CASA-CE vai superar a UNITA. O povo aos poucos vai percebendo que estava a aderir a um partido sem futuro. O Projecto da UNITA está prestes a cair. Mesmo o próprio Missanga Savimbi que estão a preparar para a futura presidência em 2019, não me parece ter capacidade para unir o angolano.

Jornal de Angola - Sente que o angolano está atento ao problema do tribalismo?

João Cololo - Os angolanos sabem. Mas é preciso lembrar que o povo funciona um pouco, permita a analogia, como capim que segue a direcção do vento. Para onde for o vento, o capim segue-lhe a direcção. O povo muda de cor num ápice. É complicado lidar com o povo. Mas sabe que a UNITA é separatista, divisionista e tribalista. Mas a crise dá-nos a falsa sensação de que eles ganham algum apoio. É mesmo ilusório. O tribalismo cria guerras e isso não é bom. Veja o que se passa na Líbia, Síria e Iraque ou em outros países africanos. São exemplos que devemos ter todos bem presentes.

Foto: Contreiras Pipas - Edições Novembro

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Mário Soares: A ATUAÇÃO DO ESTADISTA NO CONFLITO EM ANGOLA


Soares gostaria de ter ajudado a fomentar uma solução de paz

Não conheci pessoalmente o falecido antigo Chefe de Governo e Presidente português Mário Soares. Todavia, conheci pessoas que com ele privaram muito proximamente e que diziam que muitos de nós, éramos um pouco injustos com ele. A História um dia o dirá.

Como se sabe, Mário Soares, enquanto Ministro dos Governos Provisórios portugueses do pós 25- de Abril, teve um papel activo na descolonização das ex-colónias portuguesas. Tem sido, justa ou injustamente, acusado de ter praticado uma deficiente descolonização. Isso, a História – quando todos os documentos desta matéria forem desclassificados – o dirá.

No que toca a Angola, sabemos que teve sempre um papel um pouco dúbio, quer quanto à descolonização, propriamente dita, talvez porque os protagonistas, ao contrário de Moçambique, não lhe mereciam muito crédito, principalmente, os que gravitavam em torno dos movimentos emancipalistas nacionais; quer quanto, e enquanto líder governativo, no que se referia às relações entre estados e entre membros governativos.

Sabe-se, quem o conhecia bem, que Mário Soares, gostaria de ter ajudado a fomentar uma solução de paz entre os irmãos angolanos desavindos e que dessa solução o País tivesse uma mais rápida e duradoura conciliação e concórdia que lhe permitisse sair da situação de guerra mais cedo e mais cedo ter enveredado por um caminho de desenvolvimento e prosperidade que ainda não temos. Mário Soares via nessa Paz mais rápida uma via para um sistema político mais abrangente e mais distributivo. Uma democracia mais conciliável com o sistema democrático representativo vigente, por exemplo, em Portugal.

Também tentou reconciliar – paradoxalmente, isso só foi conseguido com partidos conservadores portugueses – Portugal e Angola naquilo que ele considerava como sendo – e, com a devida vénia, cito o Africa Monitor, – um “redimir Portugal das graves responsabilidades na má sorte de Angola”. Ora como Agostinho Neto, uma vez afirmou, era mais fácil conversar com a direita portuguesa que com os socialistas – o MPLA é partido-irmão do PS na Internacional Socialista – devido não sofrerem de complexos de neocolonização. E isso era algo que, como me afirmavam, Mário Soares não sofria. Ele via o todo, não particular. Só que um Chefe de Governo, num sistema pluralista, também tem limites nas suas decisões governativas. Elas são de consenso, não de imposição.

Talvez que o seu mandato enquanto Presidente não tenha sido o melhor. Factos externos a isso contribuíram. Mas isso, de certeza, o dossier do Novo Jornal o mostrará.

Esperemos pelos factos históricos que, um dia, nos esclarecerão de tudo o que se passou nas relações entre os nossos dois países. Nós, angolanos, só devemos agradecer se ter imposto a Spínola para que os três D’s (Descolonizar, Democratizar e Desenvolver) do MPF tenham sido levados por diante. Deveria ter sido mais cauteloso, no nosso caso, que tínhamos 3 movimentos de raiz ideológica diferentes? Sim, deveria. E aí também nós já gozaríamos não só do primeiro “D” como dos outros dois. Ainda vamos a tempo para o recordarmos e à sua memória política.

Aguardemos pela História!

Publicado no Novo Jornal, edição 465, de 13 de Janeiro de 2017 (Análise integrada no dossiê dedicado a Mário Soares, ex-presidente português, falecido em 7 de Janeiro passado), página 4 com o título: «Actuação do estadista no conflito em Angola» e sub-título «Soares gostaria de ter ajudado a fomentar uma solução de paz» - ver pdf do artigo publicado aqui .

*Investigador e Pós-Doutorando. 

**Eugénio Costa Almeida – Pululu - Página de um lusofónico angolano-português, licenciado e mestre em Relações Internacionais e Doutorado em Ciências Sociais - ramo Relações Internacionais - nele poderão aceder a ensaios académicos e artigos de opinião, relacionados com a actividade académica, social e associativa.

TSU BAIXA PARA PATRÕES. QUEM NÃO CHORA NÃO MAMA...


Mário Motta, Lisboa

Nestes dias transatos a novela TSU / Salário Mínimo tem vindo a subir de tom. Para garantir o aumento do salário mínimo o governo cedeu, em sede de Concertação Social, e decidiu baixar a TSU. A choradeira dos patrões e a repetida demonstração das tendências esclavagistas foi tal que o governo de Costa aceitou descer a comparticipação na Taxa Social Única em 1,25 por centro. Patrões “esmifras” são useiros e vezeiros no dar com uma mão e tirar com a outra.

PCP e Bloco discordaram (bem) desde o principio da baixa da TSU para os patrões, fazendo finca-pé no aumento do salário mínimo. Até aqui tudo bem. Faz sentido que PCP e Bloco defendam que não se justifica para o patronato a baixa da TSU. Principalmente para o grande patronato, as grandes empresas. Contudo parece que se esqueceram de aceitar que a baixa da TSU devia só abranger as micro-empresas e (talvez) as médias. Esse debate não foi feito, tanto quanto me foi dado perceber.

Porque assim e porque assado, temos levado os dias a ouvir sobre a TSU. Até que o PSD, na pessoa de Passos Coelho, maioral daquele burgo laranja, disse o que não foi surpresa: concorda com a perspetiva do PCP e do Bloco. O sujeito tem afirmado abertamente que no Parlamento o PSD vai votar contra a descida da TSU implementada pelo governo em Concertação Social. Porquê? Porque sim. Porque Passos Coelho é contra tudo deste governo mesmo que para isso tenha de cair em contradição e afastar-se do que ele mesmo faria (baixar a TSU) se fosse governo. A diferença é que não haveria aumento do salário mínimo.

Nomes sonantes do PSD já vieram a público declarar-se contra a opção tomada por Passos. Parece que Passos afinal está a mostrar à saciedade aquilo que vale como pessoa e como político incoerente: nada. Não é surpresa para os que há tanto tempo dizem e escrevem isso mesmo.

Um PSD de destaque demonstrou hoje que Passos vale exatamente nada. Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, promulgou de supetão, em menos de 24 horas o diploma que consagra a baixa da TSU. Ora toma lá, oh Passos!

Também hoje na Assembleia da República governo e partidos políticos debateram a baixa da TSU. Aqui del-rei que os patrões são uns esmifras e patati-patatá… Pois. Compreende-se a coerência do PCP e do Bloco de Esquerda mas facto é que também dá para compreender o governo PS, que acabou por ser coerente e dar mais algum a ganhar aos patrões que depois esbanjam sem consideração pelos que são as suas fontes de enriquecimento, os trabalhadores. Há desses (muitos) e os de sentido contrário. Há ainda os que arrecadam os lucros em paraísos fiscais… impunemente. Os das grandes empresas.

É certo que esta novela da TSU está para durar. Tudo indica que Passos Coelho sairá de cueiros borrados. Contudo o suspense perdurará até que as vacas tussam e nos presenteiem com matéria de origem dos quartos traseiros, umas valentes bostas. Como quem denuncia: “Olhem que os patrões estão a dar com uma mão mas a tirar com a outra”. Sabemos que é sempre assim mas nada melhor que ir alertando. Felizmente que o patronato não tem três ou quatro mãos. Assim roubaria muito mais. Bem, mas por vezes até parece que têm 30 ou 40 mãos… para além daquela que usam para “oferecer” um aumento de miséria, sempre de miséria.

A seguir, duas notícias relacionadas para atualização dos mais distraídos. Abriguem-se, vem aí frio de rachar. Brrrrr!

MM / PG 

Patrões, UGT e Governo assinam acordo para salário mínimo e descida da TSU

Patrões, UGT e Governo assinaram o Compromisso para um Acordo de Médio Prazo, que prevê o aumento do salário mínimo nacional para 557 euros e a descida da Taxa Social Única em 1,25 pontos percentuais.

Em comunicado conjunto, as confederações empregadoras afirmam que "este compromisso prova a responsabilidade dos que o assinaram, acautelando os seus interesses, mas, sobretudo, valorizando objetivos comuns e garantindo estabilidade social".

A UGT, que também assinou o compromisso, reafirma, em comunicado, tratar-se de um "acordo tripartido fundamental".

Presidente da República promulga descida da TSU

Marcelo Rebelo de Sousa promulgou quatro diplomas, entre eles o que prevê a descida da Taxa Social Única paga pelas empresas, como medida excecional e temporária de apoio ao emprego.

De acordo com uma nota divulgada na página da Presidência da República na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa promulgou esta terça-feira quatro diplomas, incluindo o "decreto-lei que cria uma medida excecional de apoio ao emprego através da redução da taxa contributiva a cargo da entidade empregadora".

Segundo um comunicado do Conselho de Ministros, este decreto-lei, aprovado por via eletrónica na segunda-feira à noite, "cria uma medida excecional e temporária de apoio ao emprego através da redução da taxa contributiva da Segurança Social a cargo da entidade empregadora".

Lusa / TSF

Portugal. MISÉRIA DA INFORMAÇÃO…


Por motivos profissionais, e não só por razões de cidadania, devo ver todos os dias a informação dos telejornais, em todas as versões.  Mas devo confessar que esta exigência começa a ganhar, para mim, a forma de tortura diária.


“Vêm aí os Relatórios de Polícia”…

E digo porquê. A informação televisiva (falo sobretudo do prime time) está a ficar cada vez mais insuportavelmente tablóide. Cabe lá tudo menos o que é relevante, de efectivo interesse para o cidadão. É o domínio incontestado da categoria do “negativo” em todos os géneros noticiosos. E é um espaço onde ocorre cada vez mais a luta política disfarçada de informação ou de opinião. É um espaço noticioso de uma extensão incompreensível para contar coisas irrelevantes do ponto de vista do interesse público. Já tudo cabe dentro de um telejornal. Até reportagens de 35 minutos, superiores à dimensão de um qualquer telejornal europeu.

Mas ao fim dos primeiros cinco minutos de notícias a reacção começa a ser quase sempre a mesma: “aí vêm os relatórios de polícia!”. À procura de audiência, para a publicidade. Porque o crime (o sexo e a tragédia) compensa, em termos de audiências. Depois, temos os comentadores. O comentário televisivo está colonizado pela classe política (e por papagaios que pouco ou nada têm para dizer). A cidadania está transformada em público espectador de gladiadores políticos. A política transformada em espectáculo, desenvolvendo-se ao mesmo tempo como espaço de conspiração, imperceptível (mas nem sempre) à maioria dos telespectadores.

Um assassinato político em directo

No passado Domingo, tivemos um excepcional exemplo disto mesmo: Luís Marques Mendes a disparar, num ritmo alucinante, como se estivesse movido a Prozac, bazucadas impiedosas contra o seu companheiro de partido Pedro Passos Coelho. Um comentador (interessado) a assassinar, não por negligência, mas de forma premeditada, com arsenal levado directamente para o estúdio, um adversário político interno. Dizem-me que, assim, liquidando PPC, faz um favor a António Costa e a Luís Montenegro… “Sol na eira e chuva no nabal”!

Mas que o púlpito informativo de uma  televisão de sinal aberto esteja ao serviço de lutas partidárias internas perante o grande público parece ser pouco recomendável. Na verdade, trata-se de um palco muito poderoso. Um palco de onde já saiu directamente (dos estúdios para Belém) um Presidente da República. Claro, não foi caso único.

Ronald Reagan já saíra do ecrã cinematográfico directamente para a Presidência USA. Tal como Arnold Schwarzenegger para o governo da Califórnia. Ou o actual (quase) Presidente Trump do Programa televisivo “The Apprentice” para a Casa Branca. Berlusconi saiu da sala de comando de Canale 5, Retequattro e Italia Unodirectamente para Palazzo Chigi, o palácio do governo italiano.

Não há, pois, dúvida de que os estúdios televisivos continuam a ser púlpitos muito poderosos, usados para a luta política e para a conquista do poder. E também em Portugal o que se está a passar merece uma atenção especial. Os “intelectuais orgânicos” do establishment mediático rebelam-se contra essa turba das redes sociais que começa a roubar-lhes definitivamente o monopólio do uso legítimo da comunicação social.

A classe política, por sua vez, ocupa os monitores televisivos sem se sentir também ela instrumentalizada pelos mesmos que lhe dão voz. Estes, por sua vez, não se sentem cúmplices de estar a construir uma “sociedade do espectáculo” governada por uma “democracia do espectáculo” que menoriza gravemente a cidadania.

A informação desliza torrencialmente para o crime e castigo, a violência, a desgraça, os acidentes e as catástrofes ao mesmo tempo que dá palco ao irrelevante em nome daquele género que em linguagem teórica se chama “de interesse humano”. O mundo que corre no monitor è uma farsa que não espelha o mundo real, mas que contribui activamente para o degradar. 

Os códigos éticos e a informação

Desde os finais do século XVII que se fala de “códigos éticos”, de regulação da informação. A Enciclopédia de Diderot e d’Alembert, de meados do século XVIII, já continha um “código” bastante articulado. Em 1910, no Kansas, é formalizado aquele que é considerado como o primeiro código ético. Seguiram-se inúmeros códigos.

O Conselho da Europa, na sua resolução 1003, de 1993, produziu aquele que é talvez o melhor código de sempre (“Ética do Jornalismo”). Os sindicatos de jornalistas têm os seus códigos. Hoje, os grandes jornais têm um livro de estilo com as normas a observar. Sim, é longa e substantiva a história dos códigos como é longa e substantiva essa exigência de tratar a informação como um bem público essencial para a cidadania e não como uma mercadoria subordinada exclusivamente às exigências do proveito financeiro (através da publicidade e sabe-se lá de que favores).

Um país com uma má informação é um país com uma má cidadania e uma má democracia. Mas é disso mesmo que estou a falar. De má informação que alimenta uma má cidadania e uma péssima democracia. De resto, para isto também contribui o próprio posicionamento do establishment mediático como poder e fonte de poder. E que, ao mesmo tempo que desliza torrencialmente para o tabloidismo e para o culto do “negativo” como categoria central do género informativo, se insurge cada vez mais contra a liberdade que desponta na rede e nas redes sociais, onde para aceder ao espaço público já não é necessário pedir autorização aos guardiões do espaço público, a esses “gatekeepers”, a esses “intelectuais orgânicos” dos vários poderes que precisam do espaço público para se afirmar e expandir.

Na verdade, hoje está já a afirmar-se uma forte tendência no campo da informação e da política que prescinde da lógica orgânica e territorial das grandes organizações comunicacionais e políticas. Esta tendência tem hoje já expressão nas redes sociais e em movimentos que se auto-organizam e automobilizam através da rede. Claro, aqui a chamada auto-regulação é mais difícil e exigente, mas a verdade é que se a regulação do establishmentmediático existe há séculos ela, todavia, é cada vez menos praticada ou mesmo assumida, vista a degradante prática informativa a que a cidadania tem vindo a estar sujeita.

Perante isto, não há dúvida de que esta informação acabará por conhecer o mesmo destino que a política tradicional já está a conhecer, vista a crescente literacia comunicacional e política que as novas gerações estão a conquistar num espaço público diferente daquele que hoje ainda pretende deter o monopólio da informação e da comunicação social.

Bem sei que enquanto houver um sofá haverá sempre em frente um televisor. Mas também sei que no sofá adormecemos muitas vezes… E que, como sugeria Goya, “el sueño de la razón produce monstruos”! Mas é precisamente por isso que também eu já prefiro a Rede…


“LEVAR PORTUGAL A SÉRIO”


Ana Alexandra Gonçalves*

Passos Coelho aparece amiúde em frente de um cartaz do PSD que diz a seguinte frase: "Levar Portugal a sério" - uma espécie de lema do partido que é, ao mesmo tempo, uma curiosidade na precisa medida em que ninguém já leva a sério o líder do PSD.

De resto, avolumam-se as vozes críticas direccionadas à actual liderança: Marques Mendes terá sido o último a proferir severas críticas à liderança de Passos Coelho, desta feita a propósito da TSU - uma trapalhada filha do oportunismo.

Já ninguém leva Passos Coelho a sério, sobretudo na qualidade de rei do azedume na oposição. Quando era primeiro-ministro, apesar das inúmeras incongruências, era levado a sério. Afinal de contas era primeiro-ministro, mal ou bem.

Agora, entre diabos e outras entidades, Passos Coelho não tem qualquer credibilidade. Enquanto espera pelo Diabo a credibilidade - a pouca que lhe resta - vai-se-lhe acabando. Mais a mais, quando Passos Coelho cai no oportunismo barato de ir contra a questão da TSU quando ainda há um mês era a favor, tudo com o objectivo de colher dividendos políticos, dá mais uma machadada na credibilidade enquanto denota desespero. Já para não falar dos seus tempos como primeiro-ministro em que se pretendeu reduzir a TSU ao mesmo tempo que se aumentaria a contribuição dos trabalhadores.

O PSD tem como lema levar Portugal a sério, a questão que se coloca é no entanto a seguinte: Como é que se pode pedir para levar Portugal a sério quando ninguém já leva a sério o líder do PSD? 

Ana Alexandra Gonçalves, Triunfo da Razão

A DECLARAÇÃO DE GUERRA DOS NEOCONS CONTRA TRUMP


The Saker

Após várias falsas partidas, os neocons deram agora um passo que só pode ser chamado de declaração de guerra contra Donald Trump. 

Tudo começou com um artigo publicado na CNN com o título "Intel chiefs presented Trump with claims of Russian efforts to compromise him" ("Chefes da inteligência mostraram a Trump alegações de esforços russos para compromete-lo"), o qual afirmava que:

Documentos classificados apresentados na semana passada ao presidente Obama e ao presidente eleito Trump incluíam alegações de que operacionais russos afirmam ter informação pessoal e financeira comprometedora acerca do sr. Trump, contaram à CNN múltiplos responsáveis estado-unidenses com conhecimento directo das sessões informativas. As alegações foram apresentadas numa sinopse de duas páginas que foi acrescentada a um relatório sobre interferência russa na eleição de 2016. As alegações vieram, em parte, de memorandos compilados por um m antigos operacional da inteligência britânica, cujo trabalho passado responsáveis da inteligência dos EUA consideram crível (...) O resumo de duas páginas também incluiu alegações de que durante a campanha houve uma troca de informação contínua entre subordinados e intermediários de Trump com o governo russo, segundo dois responsáveis da segurança nacional.

O sítio web Buzzfeed a seguir publicou o documento completo . Aqui está o seu texto integral:
 https://drive.google.com/file/d/0ByibNV3SiUooOXJxMGMzVk9ndlk/preview

Quando li pela primeira vez o documento minha intenção era desmascará-lo sentença por sentença. Contudo, não tenho tempo para isso e, francamente, não há necessidade. Apenas apresentarei aqui evidências objectivas bastante simples de que se trata de uma falsificação. Aqui estão alguns elementos para comprovar:

1. O documento não tem papel timbrado, nem identificação, nem data, nem nada. Por muito boas razões técnicas e mesmo legais, documentos delicados de inteligência são criados com muita informação de rastreamento e identificação. Exemplo:   um documento assim tipicamente teria uma referência à unidade que o produziu ou uma combinação de numeros-letras indicando a fiabilidade da fonte e da informação que contém.

2. A classificação CONFIDENCIAL/SENSITIVE SOURCE é uma brincadeira. Se isto fosse um documento verdadeiro seu nível de classificação seria muito mais elevado do que "confidencial" e, uma vez que a maior parte dos documentos de inteligência vêm de fontes sensíveis, não há necessidade de especificar isso.

3. A alegação de que "O dossier é controlado pelo porta-voz do Kremlin, PESKOV, directamente sob ordens de PUTIN" está para além do risível. Claramente, o autor desta falsificação não tem ideia de como funcionam os serviços russos de inteligência e segurança (pista:   o porta-voz presidencial não tem envolvimento com nada disso).

4. Na página 2 há esta outra sentença hilariante "explorar a obsessão pessoal e a perversão sexual de TRUMP a fim de obter 'kompromat' (material comprometedor) sobre ele". Ninguém num documento real de inteligência se incomodaria em esclarecer que a palavra "kompromat" tanto em russo como em inglês significa obviamente a combinação das palavras "comprometimento" e "materiais". Qualquer responsável ocidental de inteligência, mesmo um muito júnior, conheceria a palavra, nem que fosse por causa dos muitos livros de espionagem da era da Guerra Fria escritos acerca das armadilhas do KGB.

5. O documento fala da "fonte A", "fonte B" e daí em frente alfabeto abaixo. Agora pergunte-se uma questão simples:   o que acontece depois de a "fonte Z" ser utilizada? Pode qualquer agência de inteligência funcionar com um conjunto de fontes potenciais limitado a 26? Obviamente, não é assim que agências de inteligência classificam suas fontes.

Vou parar aqui e dizer que há ampla evidência de que isto é uma falsificação grosseira produzida por amadores que não têm ideia do que estão a falar.

Isto, no entanto, não torna o documento menos perigoso.

Primeiro, e esta é a parte realmente crucial, há mais do que o suficiente aqui para [obter] o impeachment de Trump sob numerosas bases tanto políticas como legais. Deixem-me repetir isto outra vez – trata-se de uma tentativa de remover Donald Trump da Casa Branca. É um coup d'état político.

Segundo, este documento enlameia toda a gente envolvida:   o próprio Trump, naturalmente, mas também os perversos russos e suas feias técnicas maquiavélicas. Trump é dessa forma "confirmado" como um pervertido sexual que gosta de contratar prostitutas para urinarem sobre ele. Quanto aos russos, eles são basicamente acusados de tentarem recrutar o presidente dos Estados Unidos como agente dos seus serviços de segurança. O que, a propósito, tornaria Trump um traidor.

Terceiro, em apenas uma semana passámos de alegações de "hacking russo" para "ter um traidor sentado na Casa Branca". Só podemos esperar um novo tsunami de tais alegações, a continuarem e ficarem cada vez piores a cada dia. É interessante que Buzzfeed já antecipou (preempted) a acusação de isto ser uma campanha de difamação e demonização contra Trump ao escrever que "Agora BuzzFeed News está a publicar o documento completo de modo a que americanos possam fazer seus próprios juízos quanto a alegações acerca do presidente eleito que têm circulado nos mais altos níveis do governo dos EUA", como se a maior parte dos americanos tivesse perícia para detectar imediatamente que este documento é uma falsificação grosseira!

Quarto, a menos que todos os responsáveis que informaram Trump saiam cá para fora e neguem que esta falsificação fez parte da reunião informativa com Trump, parecerá que este documento tem o imprimatur oficial dos altos responsáveis da inteligência dos EUA, o que lhe daria uma autoridade legal, probatória. Isto significa de facto que os "peritos" avaliaram aquele documento e certificaram-no como "crível" mesmo antes de quaisquer procedimentos legais em tribunal ou, pior, no Congresso. Espero seguramente que Trump tenha tido a precaução de registar em áudio e em vídeo esta reunião com os chefes da inteligência e que ele agora seja capaz de ameaçá-los com acção legal se actuarem de um modo contraditório com o seu comportamento anterior.

Quinto, o facto de a CNN se ter envolvido em tudo isto é um factor crítico. Alguns de nós, incluindo eu próprio, ficámos chocados e enojados quando o Washington Post publicou uma lista de 200 sítios web denunciados por "falsas notícias" e "propaganda russa", mas o que a CNN fez ao lançar este artigo é infinitamente pior:   é uma calúnia (smear) directa e um ataque político ao presidente eleito a uma escala mundial (a BBC e outros já estão a espalhar a mesma sujeira). Isto mais uma vez confirma que as luvas foram deitadas fora e que os siomedia [media sionistas] estão em pleno estado de guerra contra Donald Trump.

Todo o exposto acima confirma o que tenho estado a dizer ao longo das últimas semanas:   se Trump alguma vez entrar na Casa Branca (escrevo "se" porque penso que os neocons são perfeitamente capazes de assassiná-lo), sua primeira prioridade deveria ser implacavelmente tomar medidas severas tão duras quanto legalmente puder contra aqueles no "deep state" estado-unidense (o qual inclui muitíssimo os media) que agora lhe declararam guerra. Lamento dizer, mas será ou ele ou os outros – uma das partes aqui será esmagada.

[Explicação lateral:   àqueles que se perguntam o que quero dizer com "medida de força" ("crackdown") resumirei aqui o que escrevi alhures:   o melhor meio para fazer isto é nomear um director do FBI hiper-leal e determinado e instruí-lo para ir atrás de todos os inimigos de Trump investigando-os sobre acusações de corrupção, abuso de poder, conspiração, obstrução da justiça e todos os outros tipos de comportamento que perduram há muito no Congresso, na comunidade de inteligência, no mundo bancário e nos media. Negociar com os neocons como Putin fez com os oligarcas russos ou como os EUA negociaram com Al Capone – processando-o por evasão fiscal. Não há necessidade de abrir Gulags ou matar pessoas quando se pode apanhá-las a partir dos seus comportamentos diários normais :-)]

Espero sinceramente estar errado e admito que possa estar, mas não tenho o sentimento profundo de que Trump disponha do que é preciso para atingir com dureza suficiente aqueles que estão a utilizar todo e qualquer vergonhoso método imaginável para impedi-lo de entrar na Casa Branca ou tê-lo impedido (impeached) se ele tentar cumprir suas promessas da campanha. Não posso culpá-lo por isso:   o inimigo infiltrou todos os níveis de poder na sociedade dos EUA e há sinal forte de que eles estão representados mesmo no círculo imediato de Trump. Putin pôde fazer isso porque era um responsável de inteligência com vontade de ferro e altamente treinado. Trump é apenas um homem de negócios cujo melhor "treino" para negociar com tais pessoas seria provavelmente a sua exposição ao crime organizado (the mob) em Nova York. Será isto suficiente para permitir que vença os neocons? Duvido, mas tenho esperança de que assim seja.

Como previ antes da eleição , os EUA estão prestes a entrar na pior crise da sua história. Estamos a entrar em tempos extraordinariamente perigosos. Se o perigo de uma guerra termonuclear entre a Rússia e os EUA recuou dramaticamente com a eleição de Trump, a guerra total dos neocons contra Trump coloca os Estados Unidos num risco muito grave, incluindo o de guerra civil (se o Congresso controlado pelos neocon impedisse Trump acredito que levantamentos espontâneos aconteceriam, especialmente no Sul e particularmente na Florida e no Texas). Com o risco de soar excessivo, direi que o que está a acontecer agora está a colocar em perigo a própria existência dos Estados Unidos quase sem ter em conta o que Trump fará pessoalmente. Seja o que for que possamos pensar de Trump como pessoa e acerca do seu potencial como presidente, o que é certo é que milhões de patriotas americanos votaram por ele para "limpar o pântano", despedir a plutocracia baseada em Washington e restaurar o que veem como valores americanos fundamentais. Se os neocons conseguirem agora encenar um golpe de estado contra Trump, prevejo que estes milhões de americanos se tornarão violentos para proteger o que encaram como o seu modo de vida, seus valores e seu país. Apesar da imagem que Hollywood gosta de apresentá-los, a maior parte dos americanos é constituída por pessoas pacíficas e não violentas, mas se forem demasiado pressionados não hesitarão em tomar suas armas para defender-se, especialmente se perderem todas as esperanças na sua democracia.

Não estou a falar só de labregos portadores de armas, estou a falar acerca de autoridades locais, estaduais e municipais, que muitas vezes se importam mais com o que os seus eleitores locais pensam e dizem do que os que estão lá em cima em Washington. Se um golpe for encenado contra Trump e algum imitador de presidente à la Hillary ou McCain der a ordem à Guarda Nacional ou mesmo ao US Army para sufocar uma insurreição local, poderíamos assistir ao que vimos na Rússia em 1991:   uma recusa categórica dos serviços de segurança a disparar sobre o seu próprio povo. Este é o perigo maior e final para os neocons:   o risco de darem ordens para suprimir a população e a polícia, os serviços de segurança e militares simplesmente se recusarem a actuar. Se isto pôde acontecer no "país controlado pelo KGB" (para utilizar um cliché da Guerra Fria) também pode acontecer nos EUA.

Espero estar errado e que este ataque mais recente contra Trump seja o último "hurra" neocon antes de eles finalmente desistirem e abandonarem. Espero que tudo o que está acima seja a minha paranóia a falar. Mas, como eles dizem, "só porque você está paranóico isso não significa que eles não estejam no seu encalço".

Digam-me por favor que estou errado! 

Ver também: 
  4Chan déclare avoir fabriqué de toute pièce le rapport anti-Trump (Canal 4 declara ter fabricado inteiramente o relatório anti-Trump) 

O original encontra-se em http://thesaker.is/the-neocons-declaration-of-war-against-trump/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

OXFAM RELATA EM DAVOS QUE DESIGUALDADE É MAIOR DO QUE SE PENSAVA


Relatório do ano passado dizia que 62 bilionários detinham tanta riqueza quanto 50% da população. Desta vez o relatório diz que este número se reduz a oito

Flavio Aguiar, de Berlim – Carta Maior

Começa nesta segunda-feira (16.01) o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O  ministro Henrique Meirelles comparecerá levando a missão de atrair investimentos, comprovando que agora o Brasil é um país “sério” que finalmente está enfrentando “seus problemas”.

Naturalmente a mídia conservadora brasileira deverá apresentar o esforço de Meirelles como bem sucedido. Não se esperam surpresas deste lado.

Mas mais uma vez o esforço do governo brasileiro estará na contramão. Desde pelo menos o ano passado o Fórum Econômico, ao contrário do que fazia antes, quando apresentava quase sempre uma visando positiva na economia mundial, vem apresentando um balanço problemático do tema, apontando o aprofundamento da desigualdade como a espinha dorsal dos problemas do planeta.

Os dados são cada vez mais estarrecedores. No ano passado o relatório da Oxfam - um conglomerado de dezenas de ONGs e associações semelhantes que atuam em mais de 90 países, apresentado no mesmo Fórum, dizia que 62 bilionários detinham tanta riqueza quanto 50% da população mundial. Desta vez o relatório diz que este número se reduz a oito. Se levarmos em conta os outros 56 do relatório passado, a desigualdade terá dados mais dramáticos ainda.

Estes bilionários são: Bill Gates, da Microsoft, Amansio Ortega, da Zara, Carlos S. Helm, da mexicana Carso, Warren Buffet, da Berkshire Hathaway, Jeff Rezos, da Amazon, Mark Zuckerberg, da Facebook, Larry Ellison, da Oracle tech, e Michael Bloomberg, da Bloomberg News. Juntos, eles detém uma riqueza avaliada em 426 bilhões de dólares, que corresponde ao valor das posses de 3,6 bilhões de pessoas na outra ponta da pirâmide social planetária. Diz a Oxfam que a reavaliação decorreu da obtenção de dados mais precisos sobre estas empresas e também sobre a pobreza no mundo, sobretudo na Índia e na China.

Olhando-se o universo destas empresas, observa-se que:

1.Microsoft, Oracle, e Facebook atuam na frente virtual e proximidades.

2.A Amazon também atua na frente virtual, especializada em vendas de produtos editoriais.

3.A Berkshire Hathaway é uma empresa especializada em administrar outras empresas, e faz algum tempo se especializa em compra-las, agregando-as ao seu conglomerado.

4.A mexicana Carso se especializa em infra-estrutura e energia, macro-construções e no varejo destes setores.

5.A Bloomberg News é hoje um conglomerado de empresas especializadas em informações para o setor financeiro.

6.A galega Zara é uma rede de vestimentas, calçados e produtos afins para mulheres e crianças.

Todas elas têm uma atuação em escala planetária.

Foi-se o tempo, portanto, em que o Fórum de Davos e o Fórum Social Mundial, que nasceu em 2001, em Porto Alegre, eram antípodas. O FSM perdeu muito de seu ímpeto, ao recusar uma aproximação mais diretamente política (sem cair no partidarismo) dos temas mundiais. O Fórum de Davos continua em grande parte dedicado a apresentar soluções paliativas para os problemas mundiais, mas pelo menos vem se aproximando mais de um quadro realista da desigualdade planetária.

Quanto a Porto Alegre, hoje presa de uma plêiade de políticos e de uma classe média que se tornou largamente conservadora, deixou de ser “a capital do século XXI” que já foi. E como um todo o Brasil do governo ilegítimo de Michel Temer se afunda cada vez mais no pântano da desigualdade. Segundo dados da OIT, em 2017 um entre cada três novos desempregados no mundo será brasileiro.

Créditos da foto: reprodução

CHINA PREPARADA PARA COMBATER POR TAIWAN - imprensa oficial


Pequim, 16 jan (Lusa) - A China está a ficar sem paciência para o Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, na questão de Taiwan, escreveu hoje a imprensa estatal, afirmando que Pequim está pronta a combater pelo território.

Trump disse na semana passada que poderá reconsiderar o princípio "uma só China", visto por Pequim como uma garantia de que Taiwan é parte do seu território, e reconhecido por Washington desde 1979.

O Presidente eleito dos EUA quebrou já no mês passado com a tradição diplomática norte-americana, ao aceitar a chamada telefónica da Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen.

No sábado, depois dos comentários feitos numa entrevista ao jornal Wall Street Journal, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês avisou que o principio "uma só China" é inegociável.

Hoje, o jornal estatal China Daily disse que a questão de Taiwan é "uma caixa de Pandora de potencial letal".

A China tem dado o benefício da dúvida a Trump, mas se ele "está determinado a fazer este jogo ao assumir funções, será inevitável um período de interação hostil e nociva, e Pequim não terá outra escolha a não ser preparar-se para combater".

Donald Trump prometeu uma postura dura face ao que considera ser concorrência desleal por parte da China e sugeriu que a política "uma só China" poderá servir como moeda de troca nas negociações com Pequim.

"Tudo está sob negociação, incluindo o princípio 'uma só China'", afirmou.

Pequim considera Taiwan uma província chinesa e defende a "reunificação pacífica", mas ameaça "usar a força" caso a ilha declare independência.

Já a ilha onde se refugiou o antigo Governo chinês depois de o Partido Comunista (PCC) tomar o poder no continente, em 1949, assume-se como República da China.

Os EUA reconhecem Pequim como o único Governo legítimo de toda a China desde 1979.
O jornal Global Times, visto como próximo do PCC, avisou ainda que Trump tem menos espaço para negociar do que julga.

A China vai "combater impiedosamente quem defender a independência de Taiwan", afirmou em editorial na segunda-feira.

Se Trump optar por usar a ilha como moeda de troca, talvez "acabe por ser sacrificado devido a essa estratégia desprezível".

O mesmo jornal escreveu no mês passado que a decisão de São Tomé e Príncipe de cortar relações diplomáticas com Taiwan "não foi acidental", constituindo, "obviamente, um castigo" para Tsai Ing-wen.

A Presidente de Taiwan fez este mês duas paragens nos EUA, numa viagem com destino à América Central, apesar dos protestos de Pequim.

No regresso, Tsai afirmou que a sua "nova direção" para a política externa é clara.

"Devemos continuar a trabalhar para que Taiwan seja visto, para que Taiwan dê o seu contributo para o mundo", disse.

JOYP // VM

Ex-funcionário admite irregularidades nas contas no MP em julgamento de ex-procurador de Macau


Macau, China, 16 jan (Lusa) -- Um antigo funcionário admitiu hoje, durante o julgamento do antigo procurador de Macau, irregularidades relacionadas com as contas no Ministério Público (MP), como mexidas nas faturas, incluindo em nomes de itens, preços e datas, ou omissão de dados.

Chan Ka Fai, que trabalhou no MP entre 2000 e 2015, foi ouvido hoje na qualidade de testemunha no Tribunal de Última Instância (TUI) no julgamento de Ho Chio Meng, que responde por mais de 1.500 crimes, incluindo burla, abuso de poder, branqueamento de capitais e promoção ou fundação de associação criminosa em autoria ou coautoria com outros nove arguidos, os quais vão ser julgados no Tribunal Judicial de Base (primeira instância) a partir do próximo mês.

Ao longo do dia, Chan Ka Fai -- o quarto arguido do processo conexo a testemunhar no TUI -- revelou irregularidades, como manipulação de faturas e de propostas de orçamento, relatando mexidas na designação de itens e preços, alterações de datas, e até mesmo liquidação de gastos relativos a "atividades inexistentes".

Um dos exemplos referidos prende-se com as manobras feitas para justificar parcialmente as despesas da viagem que o antigo procurador fez à Europa no verão de 2005.

Ho Chio Meng, que liderou o MP entre 1999 e 2014, foi a Copenhaga para participar na Reunião Anual da Associação Internacional de Procuradores e, segundo a acusação, aproveitou a oportunidade para levar familiares, nomeadamente a mulher, para realizar viagens privadas na Holanda, Alemanha e nos quatro países nórdicos.

Dado que a 'conta', superior a 569 mil patacas (67,2 mil euros), ultrapassava largamente o valor para as despesas de representação daquele ano, foi decidido que metade seria liquidado no ano seguinte, com Chan Ka Fai a confirmar que foram então emitidas seis faturas relativas a "atividades inexistentes", sem recordar, no entanto, quem teve a ideia de recorrer a esse método, alcançado após um consenso entre funcionários e, por fim, aceite.

Essa manobra era do conhecimento do seu superior, o ex-chefe de gabinete do procurador, o mesmo que, segundo relatou, lhe deu instruções para que fossem omitidas das contas finais os nomes das pessoas que acompanhavam Ho Chio Meng em viagens e até o destino.

Ao longo da audiência de hoje, o antigo assessor afirmou que às vezes só sabiam que um facto ocorreu depois de receberam as faturas -- com as propostas para despesas a serem elaboradas só depois da verba gasta - e falou ainda da dispensa de faturas originais, por instrução do seu superior, o que não permitia comparar o preço original de um bem ou serviço com o cobrado pela empresa que servia de intermediária junto do fornecedor.

Chan Ka Fai considerava tal "inadequado", mas depois da "má atitude" com que foram recebidas as suas perguntas por parte de António Lai Kin Ian disse ter deixado de insistir sob pena de ser reprimido, confessando não haver uma "boa relação".

Essas irregularidades ocorreriam sob o chapéu do "grupo de administração geral", constituído pelo antigo procurador "através de um despacho interno".

Esse grupo absorveu, pelo menos parcialmente, competências do departamento de recursos humanos e financeiros do MP, tratando de aquisições de bens e serviços ou controlo de património, segundo Chan Ka Fai, que não soube explicar, porém, a razão pela qual foi constituído.

Chan Ka Fai reportava diretamente ao antigo chefe de gabinete do procurador, António Lai Kin Ian, também arguido no processo conexo.

Muitas vezes, o contacto fazia-se através de "post it' colados sobre os documentos, nos quais eram escritas mensagens com instruções à semelhança do que sucedeu no caso de corrupção pelo qual foi condenado o ex-secretário para Transportes e Obras Públicas Ao Man Long.

DM // VM

Na foto: Ex-procurador Ho Chio Meng