sábado, 14 de outubro de 2017

CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES 2



Thierry Meyssan*

Desde há 16 anos, inúmeros debates despertaram os peritos de política internacional para determinar os objectivos da estratégia norte-americana. É evidentemente mais fácil chegar a uma conclusão após este período do que no seu início. No entanto, muito poucos o fizeram e muitos persistem em defender teorias que tem sido desmentidas pelos factos. Apoiando-se nas conclusões deste debate, Thierry Meyssan alerta para a etapa seguinte prevista para os exércitos dos E.U. segundo os seus teorizadores anteriores a este período ; uma etapa que poderá ser em seguida posta em prática.

As forças que idearam e planearam a aniquilação do «Médio-Oriente Alargado» consideravam esta região como um laboratório no qual eles iam testar a sua nova estratégia. Se em 2001, compreendiam os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel, entretanto, elas perderam o poder político em Washington e prosseguem o seu projecto económico-militar através de corporações multinacionais privadas.

Desenvolveram a sua estratégia usando, por um lado, os trabalhos do Almirante Arthur Cebrowski e do seu assistente Thomas Barnett no Pentágono, e por outro lado de Bernard Lewis e do seu assistente Samuel Huntington no Conselho de Segurança Nacional [1].

O seu objectivo é, ao mesmo tempo, adaptar o seu domínio às evoluções técnicas e económicas contemporâneas e de o estender aos países do antigo bloco soviético. No passado, Washington controlava a economia mundial através do mercado global da energia. Para o conseguir, impunha o dólar como moeda para todos os contratos de petróleo, ameaçando com a guerra qualquer contraventor. No entanto, este sistema não podia durar a partir da substituição parcial pelo gás russo, iraniano, catariano —e, em breve, sírio — do petróleo.

Reatando com o passado da origem criminosa de uma grande parte dos colonos norte-americanos, estas forças imaginaram dominar os países ricos extorquindo-os. Para ter acesso não apenas às fontes de energia fóssil, mas também às matérias-primas em geral, os Estados estáveis (ex-soviéticos incluídos) deveriam solicitar a «proteção» do exército dos EUA e, acessoriamente, a do Reino Unido, e de Israel.

Bastava para isso dividir o mundo em dois, globalizar as economias solventes e destruir qualquer capacidade de resistência no resto do mundo.

Esta visão, do mundo, é radicalmente diferente das que prevaleciam no Império Britânico e no sionismo. Esta mudança de paradigma só poderia ser posta em prática com uma forte mobilização consecutiva a um enorme choque psicológico, um «novo Pearl Harbor». O que veio a ser o 11-de-Setembro.

Ora, se este projecto parecia delirante e cruel, nós podemos constatar 16 anos mais tarde que não só ele está efectivamente em vias de concretização quanto, na mesma medida, encontra obstáculos inesperados.

A globalização económica dos países solventes era quase total quando um deles, a Rússia, se opôs militarmente à destruição das capacidades de resistência na Síria, isto após a integração forçada da Ucrânia na economia global. Washington e Londres ordenaram, pois, aos seus aliados sanções económicas contra Moscovo. Ao fazê-lo, eles interromperam o processo de globalização dos países solventes.

Lançando o seu projecto de «Rotas da Seda», a China investiu fortemente em países destinados à destruição. As forças que promovem o «novo mapa do mundo» reagiram com a criação de um Estado terrorista, cortando a antiga Rota da Seda no Iraque e na Síria, e transformando, para tal, o conflito ucraniano em guerra, cortando assim também o traçado original da segunda Rota da Seda.

Estas forças pensam actualmente estender o caos a uma segunda região, a Ásia do Sudeste. É pelo menos para lá que os jiadistas parecem migrar segundo o Comité anti-terrorista da ONU. Fazendo-o, estas forças fecham o episódio 2012-2016 no Médio-Oriente, sem anteciparem ou não uma guerra em torno dos curdos, e preparam a devastação do Sudeste da Ásia. Isso seria a segunda etapa do «choque de civilizações», depois dos muçulmanos contra os «judeus-cristãos» (sic) [2], eis os muçulmanos contra os budistas.

Thierry Meyssan* | Tradução Alva | Fonte Al-Watan (Síria)

Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

Foto: Abu Bakr al-Baghdadi & Ashin Wirathu

Notas:
[1] Network Centric Warfare : Developing and Leveraging Information Superiority, David S. Alberts, John J. Garstka & Frederick P. Stein, CCRP, 1999. The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono-ndT), Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. « The Roots of Muslim Rage », Bernard Lewis, Atlantic Monthly, septembre1990. « The Clash of Civilizations ? » & « The West Unique, Not Universal », Samuel Huntington, Foreign Affairs, 1993 & 1996 ; The Soldier and the State & The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order («Os Militares e o Estado & Choque de Civilizações e o Refazer da Ordem Mundial»), Samuel Huntington, Harvard 1957 & Simon and Schulster 1996.

[2] A expressão judeus-cristãos designava exclusivamente até aos anos 90 a comunidade de judeus convertidos ao cristianismo em volta de São Tiago ; comunidade que foi dissolvida após o saque de Jerusalém pelos Romanos. No entanto, os cristãos ocidentais continuam a dar na sua prática um enorme destaque ao papel do Antigo Testamento, que eles defendem muitas vezes sem se darem conta dos pontos de vista judaicos em vez dos pontos de vista cristãos. Ao contrário, os cristãos do Oriente, fieis à tradição dos seus predecessores, só raramente fazem referência às escrituras judaicas e recusam lê-las durante a Eucaristia.

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